quinta-feira, 2 de maio de 2013

Principais Compositores Medievais


Notas do Autor: Primeiramente, é importante informar que em diversas partes, vocês (leitores), deparar-se-ão com termos não muito comuns, como por exemplo, a palavra “organum”. Para esclarecer eventuais dúvidas, deixarei algumas destas palavras e termos marcadas e breves descrições sobre as mesmas em seus respectivos textos.

Gregório Magno (540 - 604)
Responsável por uma importante coletânea de peças que foram publicadas em dois livros (o Antifonário¹ e o Gradual Romano²), o papa Gregório Magno ficou muito conhecido por sua criatividade e principalmente habilidade musical. A ele é atribuído o grande desenvolvimento ao canto gregoriano - ao qual possui o seu nome como homenagem - e quem também iniciou a “Schola Cantorum”.

Para quem não sabe, o canto gregoriano é a manifestação musical do Ocidente mais antiga, de acordo com os documentos e pesquisas históricas. A formação do canto gregoriano vai dos séculos I ao XI, sendo que até os séculos VII ao VIII atingiu seu auge de popularidade por ter sido compostas nestas épocas, as composições mais belas. Já nos séculos IX, X e XI que marca o princípio da Idade Média, é que o canto gregoriano perde a sua força.

Antifonário¹: Conjunto de melodias referentes às Horas Canônicas.
Gradual Romano²: Livro contendo os cantos e prosas da Santa Missa.

Guido d’Arezzo (992 - 1050):
Um importante inovador da música medieval, Guido D’ Arezzo fora um monge italiano, regente do coro da Catedral de Arezzo (Toscana). Criador da notação moderna na pauta antiga, Guido com sua criação encerrou o uso de neumas¹ na História da Música, batizando notas musicais com conhecidos nomes que utilizamos até os dias atuais: dó, ré, mi, fá, sol, lá e si (originalmente ut, re, mi, fa, sol, la e san).

Os nomes das notas musicais foram totalmente baseados em um texto sagrado em latim, presente no hino a São João Batista (reparem nas primeiras “sílabas” de cada estrofe):

Ut queant laxit
Ressonare fibris

Mira gestorum

Famuli tuorum

Solvi polluti

Labii reatum

Sancte Ioannes


Que significa: “Para que nós, servos, com nitidez e língua desimpedida, o milagre e a força dos teus feitos elogiemos, tira-nos a grave culpa da língua manchada. Ó São João".

Com o tempo, o sistema de notas musicais de Guido sofreu algumas mudanças:
A nota Ut passou a ser chamada de . O objetivo da mudança fora para facilitar o canto em uma terminação da sílaba em vogal. A derivação de Dó dá-se provavelmente de Dominus (Senhor, em Latim). Também se enquadra na mudança, a nota Si (por serem iniciais de São João - em latim Sancte Ioannes, presente no hino de São João Batista), novamente com o objetivo de facilitar o canto com a terminação de uma vogal.

(Exemplo de Mão Guidoniana)
Também é atribuída a Guido d’ Arezzo a invenção de um interessante sistema mnemônico², ao qual era usado para o ensino da fácil leitura musical, onde os nomes das notas correspondiam a partes da mão humana, conhecido comumente como Mão Guidoniana. Guido afirmava que desta forma poderia aprender música em apenas alguns dias, ao invés de semanas. Logo, Solfège ou solfeggio (solfejo³), como viera a também ser conhecido, rapidamente fora adotado pelos estudantes de canto para memorizarem exercícios complexos vocais.

Neuma¹:  Cada um dos sinais da antiga notação musical medieval, que não indicavam nem a altura exata dos sons  e nem a sua duração, mas apenas o movimento linear da melodia - onde a voz deveria elevar-se ou abaixar-se.

Mnemônico²: Relativo à memória; Fácil de reter na memória; Que ajuda a memória.

Solfejo³: Exercício musical para aprender a solfejar.

Léonin (1163 – 1201):
Em aproximadamente 1163, do início da construção da grande catedral de Notre Dame, Paris se mostrou ser um importante centro musical. Em tal cidade, as partituras de organum¹ obtiveram um elevado estágio de elaboração e tudo isso, graças a um grupo de compositores pertencentes à “L'école cathédrale de Notre-Dame” (Escola de Notre Dame). Contudo, apesar dos registros históricos confirmarem que havia de fato mais componentes, somente os nomes de dois compositores integrantes sobreviveram até os dias atuais: Leónin e Pérotin.

(Notre Dame - dias atuais)

Um importante compositor, Léonin fora o primeiro mestre do coro da catedral e com sua notável criatividade, escrevera diversos organa².

Organum¹: Com duas ou mais linhas melódicas, o “Organum” é simplesmente a primeira manifestação da música polifônica. Segundo os historiadores, as primeiras composições neste estilo começaram em meados século IX e eram desenvolvidas por um cantochão (Vox principalis), onde era acrescentada outra voz no intervalo de quarta ou quinta superior - denominada Vox organillis - duplicando assim a voz principal.

Organa²: plural de Organum.

Pérotin
Pérotin, assim como Léonin, fora um grande compositor francês e responsável pela criação da polifonia a quatro vozes. Como sucessor de Léonin, Pérotin trabalhou em Notre Dame de 1180 até cerca de 1225, exercendo o papel de mestre de coro (uma posição digna de prestígio). Pérotin também revisou muitos organa anteriores, modificando algumas partituras visando deixá-los mais modernos. Não sendo o bastante, o compositor inovou, enriquecendo este organa adicionando mais vozes. Logo, a um organum duplum, ele poderia acrescentar uma terceira ou até mesmo uma quarta voz.

Philippe de Vitry (1291-1361):
Em 31 de outubro de 1291, nascia na França Philippe de Vitry, em Vitry, Champagne. Poeta, teórico, diplomata e secretário dos reis Carlos IV e Filipe VI, Philippe de Vitry se tornou um grande compositor medieval se tornando também cônego (Cambrai, Verdun, Soissons, Saint-Quentin), e em 1351 chegando a ser bispo em Meaux, exercendo o papel por dez anos e vindo a falecer em 2 de junho de 1361.

O seu famoso tratado “Ars nova musicae” de 1325, expôs os princípios da revolução musical que se desenvolveu na França e deu-lhe o nome. Já em Florença, um movimento semelhante nascia, contudo desenvolvido num sentido diferente.

(Phillipe de Vitry)
Sobre isso, não parece que na formação técnica da Ars nova Musicae, tenha tido alguma intervenção da influência da escola florentina. Philippe de Vitry teve papel de pioneiro e pode ser considerado o criador definitivo do moteto¹ isorrítmico - de que Guillaume de Machaut nos legou os mais belos exemplos. Na obra de Philippe, uma dezena de motetos pode ser identificada com veracidade.

Moteto¹: Comumente denominado como uma composição polifônica, de caráter religioso ou profano, a várias vozes (a capela ou com acompanhamento instrumental), e cada uma com ritmo e texto próprios.

Guillaume de Machaut (1300 – 1377):
Poeta e compositor francês, Guillaume de Machaut foi considerado o maior músico da Ars Nova - período que compreende toda música composta entre 1300 até 1600. Além de um grande músico, Guillaume também foi cônego da catedral de Reims e secretário do rei da Boêmia (João de Luxemburgo). Como uma de suas marcas históricas, a obra musical de Machaut é considerada como um dos pontos culminantes da arte do século XIV.

Entre seus feitos, fixa-se a autoria de inúmeros poemas líricos, baladas, danças, motetos e da famosa Messe Notre Dame, a primeira missa polifônica.

Na época de Guillaume de Machaut, o estilo da Ars Nova é mais expressivo e refinado, pois seus ritmos são mais maleáveis e a polifonia mais evoluída.


John Dunstable (1385 – 1453): 
John Dunstable além de compositor, também era astrônomo e matemático. John foi incentivador da Ars Nova na Inglaterra, país ao qual nasceu e viveu. Suas músicas tinham quase que totalmente produções religiosas como, por exemplo, motetos, hinos, antífonas¹ e missas.

Esquecido durante séculos, John Dunstable fora valorizado posteriormente pela sua qualidade de invenção melódica já na modernidade. Em sua obra, destacam-se os motetos Veni Sancte Spiritus e Quam pulchra es.

Antífona¹: Curto versículo recitado ou cantado pelo celebrante, antes e depois de um salmo, e ao qual respondem alternadamente duas metades do coro.


Autor: William C. Gac, O Clã dos Bardos

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