quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O Mito da Criação - Mitologia Grega


I - O Caos:
Para os gregos os primórdios do universo era um local inimaginável. Controlado pelo Caos, nada fazia sentido. Céu e terra se confundiam naquela mistura desorganizada de elementos. Eles acreditavam que por muito tempo o Caos reinou no cosmo, porém não estipularam um tempo para tal fase da história universal.

Com o passar do tempo uma força emblemática aboliu com o universo caótico e colocou todos os elementos em ordem. Em nenhum mito os gregos afirmam o porquê e quem ordenou o Caos. Contudo, tal atitude foi crucial para a formação da Terra. Inicialmente reuniu-se o material necessário para criar o disco terrestre¹. Em seguida ergueu-se a cúpula celeste, onde o firmamento foi cravado, com suas estrelas, planetas e, especialmente, o Sol e a Lua. Campos verdejantes surgiram então na Terra, montanhas e colinas se elevaram sobre o solo tentando atingir os céus. As águas oceânicas adentraram o mundo de terra e rocha formando os rios e lagos.

O mundo primordial já se encontrava construído e o último complemento era a vinda dos seres que o habitariam. Em breve deuses e animais compartilhariam daquele mundo recém-formado, trazendo a vida ao disco terrestre. Mas antes disso era necessária a formação destes habitantes, foi então que Gaia, a Terra, e Urano, o Céu, uniram-se e deram origem aos primeiro seres.

II - Os primeiros habitantes:
Da união de Gaia e Urano, nasceram 12 criaturas, sendo seis delas do sexo masculino, os Titãs, e outras seis do sexo feminino, as Titânides. Todos eram seres divinos como seus pais. Os doze irmãos começaram a se relacionar e ter filhos entre si².

Dentre as Titânides, Téia, irmã e esposa de Hiperíon, deu a luz a Hélio, o Sol; Selene, a Lua, e Eo, a Aurora. Outra prole importante veio da união de Jápeto e Clímene, pais de Prometeu. Entretanto, o mais importante Titã era Cronos, o mais jovem e mais forte de todos, aquele que mudaria para sempre a vida de seus irmãos e de seu pai.

Gaia e seus filhos

Antes de entrar na história de Cronos, vale lembrar que Gaia e Urano deram origem não só aos titãs, mas também foram os responsáveis pelo nascimento de seres monstruosos como os Cíclopes, detentores de apenas um olho, os Hecatônquiros, terríveis criaturas com milhares de braços e às vezes com mais de mil cabeças. Estes últimos eram odiados por Urano, pois suas terríveis aparências não o agradavam. Desta forma ele os trancou nas profundezas do oceano, numa “masmorra” abismática conhecido por Tártaro; e lá permaneceram trancados por um longo tempo.

Gaia estava desolada com a atitude de Urano e seu amor de mãe dizia que algo deveria ser feito para liberar seus filhos. Desta forma, Gaia recorreu aos titãs, pedindo a eles ajuda para libertar os Hecatônquiros, mas nenhum deles se dispôs a ajudar, exceto Cronos. Foi então que ambos bolaram um plano para acabar com a força de Urano e por fim ao seu reino.

Em certa noite, Gaia guiou Cronos até o local onde Urano estava dormindo e entregou a ele uma foice. Tal arma seria utilizada para cortar os testículos de Urano e assim Cronos o fez. Após emascular seu pai Cronos fugiu. Gaia comemorava o feito do filho e Urano rugia de dor, enquanto gotas de seu sangue caíam no chão dando origem aos últimos seres da prole Urânica: os gigantes, as ninfas ou Melíades (belas deusas que vivem nos bosques, nas montanhas, nos rios e mares), e as terríveis Erínias (Divindades infernais aladas, portadoras de uma longa cabeleira de serpentes e providas de tochas e chicotes, atormentavam suas vítimas, levando-as ao delírio).

III - O reino de Cronos:
Tendo retirado todo o poder de seu pai Urano, Cronos tornou-se o novo senhor do Universo. Com o poder agora em suas mãos, pouco se importou com seus irmãos que estavam no Tártaro, preferindo deixa-los lá, nas profundezas da Terra. Sua mãe estava decepcionada e furiosa com a atitude do filho que em nada se diferenciava de Urano. Foi em um momento de ódio que ela o praguejou: “Você também, filho meu, será deposto do trono por um dos seus filhos!".

Cronos devorando filho

Após ouvir a praga/profecia de sua mãe, Cronos planejou um meio de eliminar todos os filhos que teve ou teria com Réia. Sempre que um novo filho nascia ele dava um jeito de devorá-lo. Desesperada Réia recorreu a Gaia, pedindo-lhe um conselho. A mãe Terra aconselhou a moça que estava grávida do sexto filho (todos os outros cinco já haviam sido devorados por Cronos) a embrulhar uma pedra em um manto, e entregar ao marido.

Assim Réia o fez, pegou o bebê e levou para uma gruta na ilha de Creta e trouxe algumas pedras. Embrulhou todas elas e escolheu aquela que se assemelhava mais com um bebê. Levou o embrulho até Cronos e o entregou. O titã não hesitou e rapidamente engoliu a pedra sem perceber que estava sendo tapeado. O bebê salvo seria futuramente o pesadelo de Cronos, esse bebê era Zeus!

IV – O fim da Era Titânica:
Zeus foi criado em Creta, dentro de uma gruta, por seres demoníacos, os Curretes. Tais demônios tinham a tradição de dançar e fazer batuques batendo suas armas contra os escudos de bronze. O barulho era essencial para disfarçar o choro do bebê, de modo que ninguém soubesse de sua existência. Cercado por ninfas, Zeus cresceu se alimentando fonte do leite da cabra Amalteia e do mel que as abelhas do monte Ida. Sua infância clandestina ocorreu em consonância com as atividades e danças dos Currentes e ninfas da região, sem que Cronos descobrisse de nada.

Já adulto, Zeus cresceu sonhando em um dia poder destronar seu pai e libertar seus irmãos. No entanto, jamais conseguiria realizar tal feito sozinho. Para tal pensou em dar ao seu pai um liquido que o fizesse vomitar os demais filhos que engolira. Assim foi feito: Zeus preparou a bebida e pediu a sua mãe que entregasse ao Titã. Cronos era um exímio glutão e bebeu tudo de uma única vez e em poucos minutos estava vomitando os cinco filhos e Zeus aproveitou para atacar. Auxiliado pelos irmãos o deus travou uma terrível guerra com seu pai e os demais titãs.

Zeus

A guerra entre deuses e titãs já durava dez anos, nenhuma das equipes obtinha grandes êxitos. O embate permanecia empatado até que Gaia resolveu ajudar o neto e disse a ele uma velha profecia: "Você nunca obterá a vitória contra o exército de seu pai, a não ser que receba o auxílio dos Ciclopes e dos outros gigantes. Desça, pois, às essências do Tártaro, onde estão confinados. Liberte-os, e eles lhe entregarão o trovão, o relâmpago e o raio!".

Confiando seu destino aos conselhos de Gaia, Zeus desceu ao Tártaro e libertou os gigantes e ciclopes. Após ganhar a poderosa arma dos gigantes, Zeus se uniu aos seus irmãos Hades e Poseidon. O poderoso trio se tornara imbatível e juntos destronaram Cronos. Mas ao contrário de seus antepassados ele não demonstrou ingratidão e resolveu dividir o mundo com seus irmãos. Cada um foi designado para comandar uma região do mundo. Os céus e a terra foram incumbidos a Zeus, os mares e rios a Poseidon e o mundo subterrâneo a Hades (em muitas versões o mundo inferior é chamado de Inferno. Porém essa denominação não se refere ao local difundido pelo cristianismo, onde os pecadores iam pagar seus erros, mas sim a morada dos mortos e das sombras).

V – O fim da Guerra:
Apesar de Cronos já ter sido derrotado a guerra ainda não havia terminado. Zeus e seus irmãos ainda precisavam vencer um demônio chamado Tífon, o filho mais jovem de Gaia. Tal criatura era a mais temida de todas, até os deuses receavam enfrentá-la.

Tífon era gigantesco e possuía centena de braços longos que possuíam nas

extremidades cabeças de dragão com língua preta e emitiam faíscas e gritavam

como animais selvagens famintos.

Claude Pouzadoux, em seu livro “Contos e Lendas da Mitologia Grega”, descreve a batalha da seguinte forma: 

“Zeus as ouviu gemer, berrar e rugir uma após a outra. Preparou-se para a luta e empunhou suas armas. O choque foi terrível: a terra tremeu, o céu ficou em brasa, e o mar se ergueu num vagalhão fervente. Dentre os dentes dos dragões jorravam chamas que os relâmpagos de Zeus desviavam. De repente, juntando todas as suas forças, Zeus lançou um dardo poderoso, feito de seu raio, que inflamou de uma só vez as múltiplas cabeças de dragão. O monstro se consumiu num fogaréu gigantesco, queimando toda a vegetação em torno. Então, finalmente vitorioso, o senhor supremo do trovão o precipitou no fundo do Tártaro. Agora Zeus podia reinar. Voltou à sua morada no cume do monte Olimpo. Encoberto por nuvens espessas, o palácio do soberano dos céus ali se erguia, majestoso. Os deuses costumavam se encontrar no salão de mármore para alegres banquetes, em que se deleitavam com néctar e ambrosia. Eles gostavam das festas, e volta e meia suas risadas e cantos ressoavam no Olimpo. Sentado num trono de ouro e marfim, Zeus dominava os deuses e o mundo embaixo”.

Poseidon 

Após a vitória definitiva de Zeus, o mundo tornou-se um lugar próspero para a proliferação de uma nova raça: os mortais, ou homens. Essa denominação era dada aos humanos pelo fato de serem o oposto dos deuses, que eram imortais.

VI – A Idade de Ouro:
A primeira raça de homens era extremamente semelhante à raça dos deuses. Eles não envelheciam e viviam em harmonia. Não precisavam trabalhar para ganhar o sustento, pois o próprio solo os fornecia alimento. Durante um bom tempo viveram entre os deuses e demais criaturas divinas, compartilhando com eles a sabedoria, pureza e felicidade.

Porém essa vida tranquila e amizade não duraria toda a eternidade e a primeira raça humana chegou ao fim, sendo sucedida por uma segunda geração.

VII – Prometeu e os homens:
Logo após a extinção da primeira geração de humanos, os deuses se uniram para criar os animais. Para tal utilizaram o barro, moldando na argila as criaturas e depois lhes dando a vida. Por uma atitude involuntária, os deuses privilegiaram fisicamente os animais, conferindo a eles meios para sobreviver com mais facilidade aos perigos do meio.

Contudo, os humanos não receberam tais mecanismos. Seus braços fracos não eram capazes de derrubar um urso, sua pele fina não suportava o frio e suas armas rudimentares não eram capazes de matar qualquer animal selvagem. Desta forma, eles estariam fadados à extinção assim como a geração anterior.

Prometeu, o filho do Titã Jápeto, sentiu compaixão pelos pobres humanos e pensou em dar-lhes o fogo, para que pudessem se aquecer nas noites frias, cozinhar seus alimentos e forjar armas mais fortes. Apesar da inteligência que lhes era peculiar, os humanos não podia vencer os animais e suas habilidades.

Os deuses, porém, guardavam o fogo só para si, como se tal elemento fosse algo exclusivo à raça divina. Assim Prometeu adentrou a morada de Hefesto, o deus do fogo e da metalurgia, para roubar a chama que lá havia. Ocultou as quentes faíscas numa raiz oca e levou aos humanos.

Prometeu roubando o fogo dos deuses

Não tardou muito para Zeus e os demais deuses descobrirem o furto. Certa noite, quando Zeus observava o mundo da sacada do monte Olimpo, avistou uma iluminação misteriosa no meio da escuridão da noite. Não foi preciso muito para que o deus supremo libertasse sua fúria e jurou se vingar de Prometeu e dos homens.

Planejando um ser que fosse trazer a desgraça aos homens, Zeus pegou um pouco de barro e criou a primeira mulher, Pandora. Com a ajuda de Hefesto e Atena, Zeus equipou Pandora com várias joias fabricadas pelo deus do fogo e um belo vestido preso à cintura feito pela deusa.

Assim enviou a mulher para a casa de Epimeteu, irmão de Prometeu. Como o pobre homem era ingênuo aceitou a visita da bela moça sem se lembrar das recomendações do irmão, que pedira para não aceitar regalias dos deuses em hipótese alguma.

Pandora trazia consigo uma caixa que Zeus recomendara não abrir. Entretanto, não passava de uma armadilha do deus que sabia muito bem que a curiosidade da moça não a permitiria deixar a caixa fechada.

E assim se sucedeu: Pandora movida por uma curiosidade incontrolável abriu a caixa que liberou todos os males do mundo: infortúnio, miséria, fome, violência, peste, etc. Desesperada ao ver todos aqueles ventos malignos saindo da caixa, Pandora a fechou rapidamente, mas no momento errado, pois todos os males já haviam saído e as coisas boas ficaram presas. Dentre elas a esperança. Os homens estavam fadados ao sofrimento eterno.

A segunda etapa do castigo de Zeus caiu sobre Prometeu que foi amarrado em correntes e preso a um rochedo. Seus braços e pernas ficaram imóveis e doloridos pela pressão gerada pelas correntes. Exposto e sem meios para se defender Prometeu foi condenado ao sofrimento eterno ao lado dos humanos, no qual uma águia vinha todos os dias comer seu fígado. Durante a noite seu órgão se regenerava e tudo se repetia no dia seguinte.


Assim o pequeno favor de Prometeu se converteu num castigo e os humanos descobriram que o bem sempre vinha acompanhado do mal, isto é, sempre que você praticar uma boa ação, algo de ruim ocorrerá em seguida.

Pois agora pergunto a você prezado leitor: fazer o bem compensa? O mal ocorre independente de uma boa ação? Talvez ambos ocorram concomitantemente, mas sabemos que nossa passagem por esse mundo não será duradoura, então acredito que o pequeno tempo que passamos aqui deva ser usado para coisas boas. Desta forma, pergunto-lhe: Você quer deixar aqui uma boa recordação de suas ações, ou o desprezo de suas maldades?

1 – Os antigos gregos acreditavam que a Terra fosse um circulo achatado, circundado pelo oceano e coberto por uma esfera de cristal, onde se instalava os céus e os astros celestes.

2 - O incesto era uma prática comum na mitologia grega, especialmente entre as criaturas divinas. 

Autor: Áviner Viana (O Clã dos Bardos)
Referência: 
O Livro de Ouro da Mitologia – Thomas Bulfinch
Contos e Lendas da Mitologia Grega – Claude Pouzadoux

10 comentários :

  1. acho que o que aconteceu com Prometeu foi um caso a parte, pois se os humanos tivessem poder, Prometeu teria para sempre bons amigos, que poderiam ajuda-lo contra os deuses.
    O problema foi Prometeu desafiar seres muito poderosos para poder fazer o bem.
    E eu prefiro deixar marcado uma coisa boa que eu fiz, mesmo com o sofrimento eterno, do que ser desprezado pela eternidade

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  2. Muito interessante!
    Li tudo! hehehehe

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  3. quer dizer q os deuses não faziam suas necessidades? pois cronos devorava seus filhos recem nascidos e zeus cresceu ficou adulto e deu ao pai o tal veneno pra cronos colocar pra fora seus irmãos e eles ainda estavam no estomago dele?!
    se o corpo de alguém não digerir alimento por um longo tempo desse era pra ele ta morto ha muito tempo. esses historiadores esqueceram de prestar atenção nesse pequeno e grande detalhe.

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    1. Sim, creio que fazia suas necessidades; os deuses tinham poderes e eram imortais, mas sentiam raiva, alegria, ódio,compaixão... Por que não fazer numero 1 e numero 2? O que aconteceu foi que Cronos comeu seus filhos imortais. Como imortais, eles cresceram dentro da barriga de Cronos (imagine como ele ficou! Õ.Ô).

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    2. Como ele mataria seres imortais?

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  4. Para a alegria de Prometeu num futuro não muito distante o Hercules aliviaria seu castigo.

    então no final das contas a ação de Prometeu teu seu castigo ,porem o bem que ele trouce foi eterno então valeu o risco.

    ;D

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  5. desde quando os seres Humanos não possui poder?
    o poder existe só não sabe utilizar-se da maneira disciplinada!

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  6. Um ótimo post,
    já li outras historias sobre o mito da criação mas pela mitologia
    romana,o que acaba confundindo por causa dos nomes dos personagens.

    lary-di-lua.blogspot.com

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  7. Esperança, se me lembro bem, não era algo bom, e de fato, a esperança ter ficado preso foi porque eles fecharam antes, sendo a única "coisa" que sobrou. Os gregos tinham o pensamento - e eu também tenho - de que a esperança cria um mundo de ilusões e sonhos, que ofusca a percepção de realidade da pessoa.

    E também é interessante notar que o fígado, para os antigos, era onde estava o amor e os sentimentos, e não o coração. Creio que é pelo fato dele retirar toxinas ou algo semelhante, mas deve ser só coisa de minha cabeça.

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  8. Muiiitoo Interresante o textoo !

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